Gado de leite – a importância das forrageiras no sistema de produção a pasto

No sistema de produção de leite a pasto, é preciso que o produtor fique atento ao teor de matéria seca da forrageira pois, quando ele é baixo, pode limitar o consumo de alimento pelos bovinos

O agronegócio do leite vem passando por profundas mudanças nestes últimos anos, devido à abertura da economia brasileira ao mercado internacional. Neste novo contexto, a exigência sobre os produtores nacionais aumentou para que estes passassem a produzir leite em maior volume, com maior regularidade e melhor qualidade. Para que isso ocorra, o produtor precisa decidir qual o sistema de produção de leite (a pasto, confinado, semiconfinado) é o mais adequado para as condições da sua região, bem como qual a melhor forrageira para o gado de leite. Além disso, precisa escolher que tipo de rebanho ou raça melhor se adapta ao seu sistema de produção.

Teor da matéria seca

Se o produtor optar pelo sistema de produção de leite a pasto, seja ele rotativo ou contínuo, é preciso que fique atento ao teor de matéria seca da forrageira pois, quando ele é baixo, pode limitar o consumo de alimento pelos bovinos. Exemplo: forrageiras com teor de 15% de matéria seca ou menos podem causar problemas de fezes muito líquidas. Outro fator muito importante é que o teor de matéria seca aumenta com a idade da planta.

“Quando o teor de matéria seca for baixo, o fornecimento de concentrado, especialmente para as vacas de maior produção (acima de 12 kg de leite/vaca/dia), pode corrigir este problema, visto que o concentrado usualmente tem em torno de 88% de matéria seca”, afirma o pesquisador da Embrapa, Fermino Deresz, e professor do curso Produção de Gado de Leite a Pasto, elaborado pelo CPT – Centro de Produções Técnicas.

Teor de proteína bruta

Quanto ao teor de proteína bruta, este diminui com o aumento da idade da planta. Por exemplo, forrageiras tropicais, com 30 dias de idade e adubadas com fontes de nitrogênio, apresentam em torno de 14% a 16% de proteína bruta na base da matéria seca, em amostras obtidas de parte da planta que o animal seleciona em condições de pastejo. Em condições de capim verde picado (planta toda) com 30 dias de idade, o teor de proteína cai para 10% a 12% na base da matéria seca. Esta é uma das grandes diferenças entre o capim selecionado pelo pastejo e o capim verde picado.

Forrageiras tropicais com menos de 12% de proteína bruta na base da matéria seca, em condições de pastejo, limitam a produção de leite. Isso porque não se recomenda para as vacas em lactação menos de 12% de proteína bruta na dieta. A dieta pode ser apenas pasto ou pasto mais concentrado, ou, ainda, pasto mais volumoso (silagens, feno) e mais concentrado. Além disso, é com base no teor de proteína bruta do volumoso (pasto ou silagens ou feno) que se balanceia (formula) o concentrado.

Usualmente, são necessárias 85 g de proteína bruta para cada quilo de leite a 4% de gordura. Então, se vamos formular um concentrado para ser fornecido na base de 1 kg para cada 2 kg de leite, precisaríamos de 170 g de proteína bruta em cada quilo de concentrado. Entretanto, a eficiência de utilização da proteína bruta pela vaca não é 100%, e sim em torno de 85% a 90%. Por isso, precisamos formular um concentrado com 10% a 15% acima das necessidades do animal, ou seja, com 19% a 20% de proteína bruta na base da matéria seca.

Quanto menor o período de descanso da pastagem, melhor a qualidade da forragem a ser fornecida ao gado leiteiro

Potencial da forrageira fornecida

Em termos de manejo de pastagem, é importante definir qual é o potencial de produção de leite da forragem disponível na propriedade. Isso vai depender do manejo da pastagem. O pastejo rotativo tem a grande vantagem de controlar a qualidade da forragem quando se define o período de descanso da pastagem. Quanto menor o período de descanso da pastagem, melhor a qualidade da forragem. O período de descanso, teoricamente, pode variar de 24 a 45 dias. É lógico que a pastagem com 30 dias de descanso tem melhor qualidade do que aquela com 45 dias de descanso, nas mesmas condições de adubação.

A fração fibra em detergente neutro (FDN)

A fração fibra em detergente neutro ou FDN é determinada em laboratório. Seu teor aumenta com a idade da planta. Quanto menor o teor de FDN, maior o teor de energia na forrageira tropical. Quanto menor o teor de FDN na forragem, maior é o consumo de alimento. Da mesma forma, é importante salientar que, quando nos referimos a vacas de alta produção de leite (35 a 40 kg/dia), o teor de FDN máximo está ao redor de 30% na base da matéria seca. O teor de FDN é usado no balanceamento de dietas de vacas, especialmente aquelas de alta produção.

Por isso é que o feno, o capim verde picado e as silagens de forrageiras tropicais têm limites máximos de participação nas dietas de vacas de alta produção. Se o teor máximo de FDN na dieta na base da matéria seca é de 30%, então, a participação de uma forrageira tropical, com 60% de FDN, só pode ser de no máximo 50% da matéria seca da dieta. Ou seja, 50% da matéria seca deve vir do concentrado.

Digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS)

Outra variável muito importante para avaliar a qualidade de uma forrageira é a digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS). Essa avaliação também é feita em condições de laboratório. Quanto maior o valor da digestibilidade in vitro da matéria seca de uma forrageira, melhor é a sua qualidade e melhor é o consumo de alimento. A variável consumo é muito importante para vacas leiteiras e para ganho de peso em animais em crescimento. Existe um denominador muito importante para o valor da digestibilidade in vitro da matéria seca. Qualquer valor abaixo de 65% diminui o consumo de alimento.

À medida que aumenta a idade da planta, diminui a digestibilidade in vitro da matéria seca. As forrageiras tropicais manejadas com 30 dias de descanso apresentam valores de digestibilidade in vitro da matéria seca ao redor de 65%. Se o período de descanso aumenta de 30 dias, o teor de digestibilidade in vitro da matéria seca cai para valores menores que 65%. Se não houver controle na idade da planta por meio do período de descanso, a digestibilidade in vitro da matéria seca pode ser inferior a 50%, e, neste caso, é possível esperar valores de consumo de 1 a 1,5% do peso vivo, em lugar dos 3% do peso vivo observado com valores de 65% ou acima disso.

A única maneira de aumentar a digestibilidade in vitro da matéria seca é com a utilização de concentrados com alta digestibilidade. Só que, nesses casos, os custos de produção aumentam, pois os suplementos concentrados são sempre mais caros do que a forragem.

Por Andréa Oliveira

Artigo publicado no site oficial da CPT – Centro de Produções Técnicas Capacitação Profissional

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Artigo – Quer obter lucro com a produção de leite? Escolha a Genética adequada para a vaca leiteira rentável e funcional

Por Tatiane A. Drummond Tetzner
Médica Veterinária D.Sc., Mestre e Doutora em Reprodução Animal UNESP, Especialista em Julgamento das Raças Zebuínas FAZU/ABCZ, Jurada Efetiva ABCZ, ABCGIL e Girolando, Gerente de Produto Leite CRV LAGOA
tatiane.tetzner@crvlagoa.com.br

1. INTRODUÇÃO
1.1 – Cadeia Produtiva

O agronegócio do leite desempenha um papel importantíssimo na sociedade mundial, e de relevância no setor econômico de suprimento de alimentos bem como na geração de empregos permanentes, e como fonte de renda. A cadeia produtiva do leite no Brasil vem enfrentando alterações significativas nos últimos anos. Assim, a profissionalização passa a ser vital no sistema de produção, bem como a eficiência da empresa rural. Os avanços tecnológicos na bovinocultura leiteira têm recebido crescente atenção por parte dos vários segmentos do setor lácteo.

O produto final, ou seja, o leite é um alimento único pelo seu valor nutritivo e pela sua composição, sendo, portanto, um constituinte essencial da dieta dos recém-nascidos, sendo também indicado em todas as idades. Por isso é extremamente importante apresentar-se com qualidade.

O consumo per capita de leite no Brasil é de aproximadamente 161 litros. O Estudo da Associação Leite Brasil indica que o consumo per capita de produtos lácteos aumentou 60% nos últimos 30 anos no país. A demanda interna tem crescido, porém lentamente. O consumo per capita encontra-se relativamente estagnado por muitos anos, e tem sofrido concorrência de vários outros produtos. Além da distribuição de renda, a demanda de lácteos necessitaria de ser acompanhada de campanhas de informação dos aspectos nutricionais do leite, e marketing.

O consumo de leite e seus derivados, como queijos, bebidas fermentadas e iogurtes, estão associados a uma dieta de qualidade no geral e adequada na ingestão de muitos nutrientes, como cálcio, potássio, magnésio, zinco, ferro, riboflavina, vitamina A e vitamina D.

O consumo de lácteos deveria ser estimulado de forma mais eficiente. Pois somente dessa forma a população teria acesso às informações e daria maior importância na presença do leite e seus derivados na dieta diária.
1.2 – Produção de Leite no Brasil

A produção brasileira de leite ainda tem muitos aspectos para evoluir. Todos os dados estatísticos bem como suas respectivas interpretações são importantes para nos situarmos na CADEIA PRODUTIVA, e conhecermos as limitações atuais da atividade, para que dessa forma possamos atuar de forma enfática nas etapas que podem ser alteradas para proporcionar ganhos, sejam de ordem genética, produtiva e/ou econômica. Alguns dos aspectos e etapas que podem evoluir estão correlacionados a reprodução, a sanidade do rebanho, e a nutrição. A posteriori pode-se avançar em etapas como manejo, qualidade do leite produzido, produtividade animal e por área, e administração da produção. No Brasil, existem processos tecnológicos disponíveis para que a produção seja competitiva e viável.

A GENÉTICA a ser utilizada nos rebanhos leiteiros é de fundamental importância para se obter lucro na atividade. Dessa forma a escolha da Raça, e/ou Cruzamentos a serem utilizados deve passar por uma prévia análise geral da propriedade, como tais avaliações: condições edafo-climáticas (solo, temperatura, umidade, pastagens, pluviosidade), bem como instalações, mão de- obra qualificada, manejo.

Como a maior parte do nosso país contempla condições climáticas “Tropicais”, com elevadas temperaturas, variando em pluviosidade e umidade, é muito importante a escolha de uma raça, ou cruzamentos que sejam adaptados a essas condições, e que tenha rusticidade, adaptação ao calor, resistência a endo e ectoparasitas, pois o custo de produção será menor quando a interação genética x meio-ambiente resulta positivamente.

1.3. – Processo de seleção de gado leiteiro

A ênfase no processo de seleção de gado leiteiro é dada para características de produção. Como a produção de leite é a característica mais importante em programas de melhoramento de gado leiteiro, faz-se necessário avaliar a sua associação com outras. Atualmente, raças puras e cruzamentos são utilizados de acordo com as necessidades de cada região. Sendo assim, a conformação do úbere assume grande importância em função de sua associação com características produtivas, o que pode auxiliar na eficiência e redução do tempo de seleção para a produção de leite, através da seleção indireta.

Peça chave para ser estudada em todo esse processo é o úbere, ou seja, o sistema mamário, pois esse sistema é responsável pela síntese do leite, principal constituinte da dieta de seres humanos. Além da correlação com a longevidade produtiva e funcionalidade, o sistema mamário é uma estrutura que interfere diretamente nos índices econômicos da atividade pecuária leiteira.

Ainda porque as características consideradas com estimativas moderadas a altas indicam que é possível se obter ganho genético por meio da seleção.

2. GENÉTICA TROPICAL: GIR LEITEIRO E GIROLANDO

O cruzamento da Raça Gir (Bos taurus indicus), raça Zebuína com a Raça Holandês (Bos taurus taurus), raça Europeia, resultou a Raça Sintética Girolando, nos seus variados graus de sangue, e atualmente contempla e está presente em pequenas propriedades rurais, com agricultura familiar, até grandes empresas no setor lácteo, com elevada tecnificação.

Atualmente, o Gir Leiteiro é reconhecido no Brasil e no mundo pelo seu desempenho como raça especializada leiteira, sendo uma opção para produção de leite nos trópicos principalmente por apresentar características condizentes à produção sustentável de leite a pasto.

A contribuição do Gir Leiteiro nos últimos anos, após a consolidação no mercado deveu-se ao PNMGL. Os resultados obtidos pelo Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro são disponibilizados através dos sumários anuais que contém informações de touros provados através da metodologia do teste de progênie.

No Brasil, o Gir leiteiro está sob processo de seleção desde a década de 30 e, a partir de 1993, num trabalho conjunto entre criadores, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL).

As avaliações genéticas do PNMGL são realizadas para as características de produção (leite, gordura, proteína, lactose e sólidos totais), conformação (altura de garupa, perímetro torácico, comprimento corporal, comprimento de garupa, largura de ísquios e íleos, ângulo da garupa, ângulo dos cascos, posição das pernas vista lateralmente e por trás, e características de sistema mamário: ligamento de úbere anterior, altura e largura do úbere posterior, profundidade do úbere, comprimento e diâmetro de tetas) e manejo (facilidade de ordenha e temperamento).

3. MORFOLOGIA E CONFORMAÇÃO DO BIOTIPO LEITEIRO

A principal meta dos criadores e selecionadores de bovinos leiteiros é a obtenção de animais capazes de produzir grandes quantidades de leite com teores elevados de sólidos totais, proteína e gordura, por um longo período de tempo, em sistema de produção a pasto e econômico, ou seja, rentável. Dessa forma, os produtores dão ênfase à seleção para produção de leite e conformação visando produzir um animal com características produtivas, funcionais e longevas.

A morfologia ou conformação tem um significado de relevância econômica na atividade. Sendo assim, atenção especial deve ser dada para as características de conformação que indicam capacidade de suportar altas produções e longevidade com o objetivo de aumentar a vida útil de cada fêmea.

Na avaliação do biótipo leiteiro levamos em consideração a capacidade produtiva do animal, valorizando aqueles animais próximos do biótipo ideal para produzir leite (fêmeas), ou para transmitir características leiteiras à
progênie (machos).
3.1. ASPECTOS ECONÔMICOS

Diversos aspectos econômicos ligados a longevidade enfatizam a vida média, e mais longa em gado leiteiro, o que tende a aumentar os lucros, pelos seguintes motivos:

– Redução dos custos de substituição para cada vaca mantida no rebanho,
– Aumento da média de produção do rebanho pelo aumento da idade média das vacas em lactação,
– Redução do número de novilhas que devem ser criadas para reposição, aumentando o número de vacas em lactação por área, possibilitando o descarte de animais jovens, seja para produção de carne (machos) ou leite (fêmeas).

Na comercialização também a morfologia e conformação são de extrema importância, pois animais com biótipo desejável alcançam valores superiores no momento da venda, quando comparados aos animais de biótipo intermediário ou indesejável.

A utilização adequada das avaliações genéticas permite aos técnicos, criadores e selecionadores escolherem sêmen de touros que possam melhorar e agregar qualidade genética nos seus rebanhos, bem como selecionar as melhores matrizes para se tornarem doadoras, e através de acasalamentos seletivos e direcionados, pode-se promover a multiplicação dos animais geneticamente superiores, e, assim, elevar ao máximo a produção de leite e longevidade produtiva.

4. SELEÇÃO PARA PRODUÇÃO DE LEITE E BIÓTIPO LEITEIRO

É possível aliar a seleção para produção e tipo, selecionando características que se sobrepõem, e que se completam, sendo assim, a busca pela harmonia e equilíbrio deve nortear qualquer planejamento estratégico de uma atividade pecuária.

A longevidade produtiva deve ser levada em consideração no momento de avaliação de uma fêmea produtiva, já que a taxa de reposição elevada gera altos custos para a pecuária leiteira.

Existem duas razões para seleção da conformação exterior: atender a demanda de valorização pelo mercado de um determinado tipo de animal, e obter, pelo menos em parte, resposta indireta para produtividade.

O tipo, ou exterior do animal, diz respeito à aparência geral relacionada com a função produtiva. Para cada tipo funcional há um número infinito de diferenças em conformação, tamanho, estatura, e etc. A maioria dos genes responsáveis pela conformação não exerce uma função local e sim geral, por isso, a forma de uma parte está intimamente correlacionada com a forma de outras e do todo. A modificação de uma parte pode vir a constituir um novo tipo. Então tipo e conformação são termos intercambiáveis. A definição de conformação ideal deve se aproximar da conformação para fins comerciais visando aptidão de produção e das mensurações quantitativas e do controle de produção.

O “tipo funcional”, termo sugerido para se referir à conformação do corpo associada à produção de leite durante a vida produtiva da vaca, foi amplamente investigada por diversos pesquisadores, sendo que a maioria dos autores concluiu que as duas características, tipo e produção, parecem ser independentemente herdadas e, para melhorá-las, é necessário que a seleção seja praticada em ambas.

As estimativas de correlações genéticas entre produção de leite e medidas de tamanho, ou estatura corporal, permitem verificar que a seleção para produção de leite pode ter, como resposta correlacionada, diminuição do tamanho da vaca.

Aparência geral: deve-se levar em consideração a harmonia do conjunto e o desenvolvimento corporal, juntamente com a idade. A análise deve ser ampla, observando o equilíbrio entre as partes. Deve-se observar também o padrão racial, expressão da sexualidade bem definida (masculinidade e feminilidade), a harmonia do conjunto corporal, o vigor, a saúde e o temperamento. O tamanho ou estatura, largura e peso tem grande importância comparativa dentro da faixa etária.

Características Leiteiras: deve ser considerada a etapa ou fase de lactação, a idade da fêmea (primípara ou multípara). Deve ser observada a força leiteira, encaixando com a habilidade leiteira. Observa-se e avalia-se ainda a índole ou controle do animal (temperamento).

Capacidade: Avaliação da profundidade e equilíbrio torácico, ou seja, perímetro torácico. Importante também verificar a amplitude peitoral e volume do costado, bem como arqueamento, distanciamento e direcionamento das costelas, os quais devem apresentar vigor e boa capacidade (capacidades respiratória, circulatória e digestória).

Aprumos: Observação da constituição óssea, equilíbrio e harmonia dos movimentos, e facilidade de locomoção. Deve-se dar atenção quanto a angulação das articulações e qualidade dos ligamentos e tendões, tecidos conjuntivos.

Quadrante de garupa: Avaliação do comprimento, largura e ângulo ou nivelação. A inserção da cauda deve ser suave, sem elevações ou depressões.

Sistema mamário: avaliação quanto ao volume, profundidade, largura, forma e textura do úbere anterior e posterior, aparatos suspensórios (ligamentos), irrigação e drenagem.

Uma FÊMEA LEITEIRA IDEAL deve possuir os seguintes requisitos abaixo:

– Produção de leite elevada e satisfatória, produtividade;
– Qualidade para sustentar essa produção de leite, funcionalidade;
– Condições para sustentar essa produção por várias vezes, repetibilidade;
– Vida útil longa no rebanho, longevidade.

Características de Conformação do Úbere
Em gado de leite as características de conformação do úbere assumem grande importância em função de sua associação com características produtivas, o que pode auxiliar na eficiência e redução do tempo de seleção para a produção de leite, através da seleção indireta.

Além da correlação com a longevidade produtiva e funcionalidade, o sistema mamário é uma estrutura que interfere diretamente nos índices econômicos da atividade pecuária leiteira.

CONCLUSÕES

É importante ressaltar que todas as etapas do processo de escolha do animal ideal para a produção de leite, devem ser efetuadas com planejamento estratégico. O acompanhamento no segmento de melhoramento genético bem como a análise fenotípica ou visual, manejo racional e etológico dos bovinos, aspectos sanitários, reprodutivos e aspectos nutricionais são importantes para o sucesso na pecuária leiteira.

Além da ETAPA de GENÉTICA, muitos outros fatores, ou seja, demais ETAPAS que devem ser consideradas para sucesso na atividade leiteira. A escolha e seleção dos reprodutores é apenas o ponto de partida, o pontapé inicial. Por isso, informar-se corretamente e avaliar cada situação, é a melhor opção para atingir o ponto ótimo entre custo e benefício, e, assim a obtenção de uma atividade leiteira rentável.

O lucro é resultado de coisa bem feita

Na atividade leiteira, os riscos advindos de questões climáticas, biológicas ou econômicas são maiores do quem em outros setores agropecuários. Isso porque a produção de leite exige alto investimento em benfeitorias, máquinas, animais e, em alguns casos, também em terra.

O produtor precisa ter sempre em mente essa variável do risco e lembrar que as condições adversas de preço e mercado para o produto devem ser suportadas por um prazo curto. Ou seja, o produtor precisa ter fôlego para enfrentar as adversidades por um período de tempo, pois o prejuízo de abandonar a atividade leiteira tem alto custo, tão grande quanto o da entrada na atividade. Sendo assim, em qualquer decisão na atividade leiteira é necessário considerar, no mínimo, os resultados de 24 meses.

Ninguém deve decidir iniciar-se na produção de leite ou deixá-la para trás baseado em resultados obtidos no curto prazo. Isso porque, a médio ou a longo prazo, é possível ter uma dimensão mais realista da situação. Analisando os resultados dos custos de produção, dos indicadores técnicos e econômicos, assim como o preço médio do leite, por um período mais longo, o produtor tem condições de tomar uma decisão e adotar estratégias acertadas para seu negócio.

A necessidade de levar em consideração os resultados de longo prazo não se justifica quando se avaliam culturas anuais, como o milho e soja, pois a sua exploração tem menor custo tanto de entrada quanto de saída da atividade. Já a produção de leite é uma atividade de longo prazo. Seus resultados técnicos e econômicos são mais lentos: não se alteram os indicadores reprodutivos do rebanho de um dia para o outro e não se aumenta a produtividade das vacas com passe de mágica. Para ter sucesso na atividade, além de gostar de leite, vacas e dinheiro, é necessário muito trabalho, competência, paciência e persistência.

Os indicadores econômicos são diretamente influenciados pelos resultados técnicos. Por exemplo, para melhorar os indicadores reprodutivos e a produtividade, o produtor deverá cuidar da alimentação, do manejo e da genética do rebanho. Todos esses fatores normalmente produzem resultados lentos, ou seja, as mudanças não surgem do dia para a noite. No caso da genética, é preciso um mínimo de doze meses e até três a quatro anos para que o melhoramento seja percebido.

Maior ganho, maior risco

Na maioria dos negócios, o investimento maior é acompanhado por uma tendência de ganhos também maiores. Em contrapartida, mais investimentos e mais ganho também resultam em risco maior. Isso porque a aposta é a mais alta e há riscos que fogem à previsibilidade.

Assim, quando buscamos o aumento da produção, precisamos considerar também o fator de risco. O aumento da produção normalmente vem acompanhado de utilização mais intensa de insumos, que eleva o custo operacional efetivo. Com maior custo, o preço mínimo do litro para cobri-lo precisa ser maior; portanto, aumenta o risco da atividade. Poucos produtores e técnicos alertam para essa questão. Alta quantidade de leite é muito boa quando há lucro, que é a diferença da renda bruta da atividade menos todos os custos (fixos + variáveis); entretanto, se o resultado for negativo, quanto maior a quantidade produzida, maior o prejuízo.

Já se falou aqui sobre a necessidade de se buscar o sucesso na atividade por meio do equilíbrio dos custos de produção. O sucesso não ocorre somente pela redução de custos de forma incondicional, mas também pela busca de equilíbrio nos custos de produção. Além disso, almejar o aumento do volume de leite com qualidade e preços melhores é fundamental. Esses fatores devem ser conjugados de acordo com o sistema de produção de cada fazenda e do mercado no qual se desenvolve a atividade leiteira. Mercados com demanada maior podem justificar produções maiores.

Tudo isso comprovado em pesquisa que realizamos junto a 554 produtores participantes do Projeto Educampo/Sebrae-MG no período de junho/2012 a maio/2011, com valores corrigidos pelo IGP-DI julho/2011. Para essa análise, utilizamos o preço médio do leite no período, o custo operacional total por litro (os custos variáveis + gastos com mão de obra familiar+ depreciações de máquinas, benfeitorias e forrageiras não anuais) e a margem líquida por litro, que é o resultado da renda bruta meno os custos operacionais totais da atividade.

Quando analisamos os dados obtidos, observamos que os produtores que ganharam mais dinheiro com a atividade, ou seja, os que obtiveram maior taxa de retorno do capital, são os que produziram o leite a um custo de R$0,60 – R$ 0,65/ litro. Já os produtores que obtiveram menor rentabilidade ou opearram com prejuízo, produziram a um custo de R$ 0,89/litro. Os produtores que produziram leite a custos muito baixos, abaixo de R$ 0,60/litro, obtiveram também baixo volume de produção. No final das contas, muito de pouco é pouco, e portanto, ganharam pouco dinheiro. Já os que produziram leite a um custo alto, no valor de R$ 0,89/litro, mesmo com maior volume, não tiveram compensação diante dos preços recebidos.

Enquanto os produtores que conseguiram produzir a R$ 0,60/litro operaram com o risco de obter margem líquida negativa igua a 3%, os grupos que produziram aos custos de R$ 0,70 e R$ 0,89 operaram com o risco de fechar os custos com prejuízo de 31% e 93%, respectivamente. Portanto, o negócio leite para esse grupo foi bem arriscado.

Portanto, nem sempre o menor custo, com menor risco, leva a maior rentabilidade. Em contrapartida, maior investimento, com maior custo, tende a aumentar o volume produzido.

Mas se não considerarmos o efeito do mercado, atentando para os preços recebidos, corremos o grande risco de alcançarmos resultados econômicos insatisfatórios ou negativos.

Um custo equilibrado significa um valor menor do que o preço médio recebido e culmina no melhor sistema de produção, que é aquele em que o produtor ganha mais dinheiro.

Rentabilidade de outras culturas

Diante do exemplo, reforçamos a necessidade de se equilibrar o ótimo econômico com o ótimo produtivo. Nem sempre as maiores produção e produtividade levam aos maiores ganhos. Isso é válido para quase todas as atividades agropecuárias.

Enquanto o grupo de produtores que ganhou mais dinheiro com leite obteve taxa de remuneração do capital com terra igual 11,17% a.a., com uma produtividade de terra de v5.460L/ha/ano; os produtores de café, que obtiveram maior taxa de retorno no biênio 2008/2010, conseguiram 10,88% ao ano, com produtividade de 33 sacas/hectare. Produtores de cana, na safra 2009/2010, com produtovidade de 80ton/ha, obtiveram uma rentabilidade de 13,89% a.a.

Esses resultados foram verificados em 25% do total de produtores participantes dos Projetos Educampo Leite, Café e Cana de Açúcar do Sebrae-MG e empresas parceiras que alcançaram maior rentabilidade. A forma de cálculo dos indicadores foi a mesma para todos os grupos e culturas.

Para equilibrar o seu negócio, é necessário conhecer os resultados. Qual é o custo médio da produção de leite no último ano? Qual o preço médio recebido? Como está a produtividade das vacas, da mão de obra e da terra? Se você não tem as respostas para essas perguntas, converse com seu técnico e reveja a forma de gerenciar o seu negócio.

Todos nós devemos “achar” menos. Quem planta semente de “acho”, colhe os frutos do “talvez” e do “quem sabe”. O empresário rural deve assumir ações administrativas eficazes, para amenizar os riscos inerentes ao negócio, ponderando ousadia com responsabilidade. Lucro nada mais é do que o resultado das coisas bem feitas.

Autor do artigo: Christiano Nascif – Zootecnista, coordenador de Assistência do PDPL-RV e coordenador técnico do Projeto Educampo/ Sebrae.

Fonte: Este artigo foi publicado na edição nº 51 da Revista Mundo do Leite.

Mastite Clínica – Prejuízos ainda são subestimados

A ocorrência de mastite, juntamente com problemas reprodutivos e de casco, é uma das principais fontes de prejuízos em rebanhos leiteiros, tendo impacto direto sobre os custos de produção.

A mastite pode manifestar-se em duas formas básicas: clínica e subclínica.  A forma clínica é facilmente reconhecida por meio do teste da caneca, pois o leite ou o quarto mamário apresentam alterações visuais, como a presença de grumos, coágulos e leite aquoso. Já a mastite subclínica somente pode ser detectada mediante testes auxiliares, como o CMT e a contagem de células somáticas.

A estimativa dos prejuízos causados pela mastite não é uma tarefa simples, pois as perdas dependem de alguns fatores que variam de propriedade para propriedade, entre os quais: preço do leite, custos de alimentação, programas de pagamento de leite, custos e protocolos de tratamentos e custos de reposição e de criação.

Uma das principais razões para quantificar as perdas causadas pela mastite é a necessidade de conscientização dos produtores sobre os custos associados à doença. Na grande maioria das vezes, produtores não percebem que a mastite traz prejuízos ou subestimam alguns custos indiretos.

Devido à natureza crônica da mastite, os prejuízos podem ocorrer durante o ano todo e não são facilmente observáveis. Dessa forma, a estimativa dos custos gerados pela presença da doença pode aumentar a percepção sobre as perdas econômicas, o que permite motivar os produtores a implantar medidas de controle e melhoria da saúde do úbere. Outra justificativa sobre a importância de conhecer os custos da mastite é que essa informação permite auxiliar o produtor a decidir sobre quais medidas e práticas de manejo apresentam maior relação custo/benefício no que se refere ao controle da doença.

A mastite clínica pode afetar diretamente a lucratividade: no entanto, a intensidade das perdas depende da gravidade dos sintomas e do tipo de agente causador. A gravidade dos casos de mastite clínica pode ser classificada em três diferentes escores:

1) leve: somente alteração do leite (grumos, coágulos);
2) moderado: alterações do leite e de sintomas no quarto afetado (inchaço,dor);
3) grave: além dos sintomas do escore 2, a vaca apresenta sintomas sistêmicos (febre, desidratação e prostração).

Na maioria das fazendas, os casos mais graves (escore 3) representam cerca de 10% do total de casos clínicos. Estima-se que em rebanhos com bom controle, ocorram até 40 casos de mastite clínica por 100 vacas/ano. Considerando-se que, em média, 25% das vacas são afetadas pela mastite clínica, pode estimar-se que, em média, cada vaca com mastite clínica apresenta 1,6 caso de mastite/ano.

A ocorrência de um caso de mastite clínica ocasiona prejuízo diretos, visto que há necessidade de tratamento e descarte de leite com resíduos de antibióticos. Esses custos são visíveis e podem ser facilmente contabilizados. Há, porém, outros custos indiretos, que não são facilmente mensuráveis. Entre esses estão a as perdas de produção de leite de curto e longo prazo, o aumento do risco de aborto e de ocorrência de outras doenças, o descarte da vaca e a perda de quartos mamários. Vacas com mastite apresentam 10% a mais de chance de serem descartadas do que vacas sadias. Muitas vezes, pode ser mais vantajoso para o produtor descartar uma vaca que tenha apresentado vários casos de mastite por conta dos prejuízos acarretados pelo animal.

Os resultados de estudos apontam que um caso clínico de mastite, independentemente da gravidade, pode acarretar perdas médias de R$ 200,00/caso. O principal componente das perdas financeiras dos casos clínicos está na redução da produção de leite das vacas afetadas. Dessa forma, o custo de um caso de mastite clínica depende principal,ente da extensão das perdas de produção. Uma vez que a mastite tende a aumentar sua prevalência durante o verão, os prejuízos são maiores nessa época do ano.
Adicionalmente, casos de mastite no início de lactação apresentam impacto maior do que aqueles no final da lactação, pois os efeitos negativos sobre a produção podem ser mantidos durante toda a lactação e, em alguns casos, podem se estender até a próxima lactação, ainda que os efeitos principais sejam sobre a lactação na qual ocorre o caso de mastite. De forma similar, vacas mais velhas são mais propensas a apresentar mastite do que animais mais jovens.

Muitas vacas que desenvolvem mastite clínica são grandes produtoras, já que a elevada produção é um dos fatores de risco para a ocorrência de novas infecções intramamárias.

As perdas da produção de leite em vacas com mastite clínica começa a ocorrer após o diagnóstico, sendo que a maior redução ocorre nas primeiras semanas (acima de 126 kg). Há uma redução gradual a um valor constante após cerca de dois meses do início do caso clínico. Vacas que desenvolveram casos clínicos raramente retomam seu potencial de produção anterior.

 

Vacas de primeira lactação perdem cerca de 160 kg de leite no primeiro episódio. Em relação às vacas adultas de alta produção, a estimativa é de que a redução de produção seja de 250 kg de leite para o primeiro caso clínico, 240 kg de leite para o segundo e 220 kg de leite para o terceiro.

Dessa forma, uma vaca adulta que tenha três casos clínicos durante uma lactação deixa produzir 700 kg de leite somente em razão da redução de produção leiteira.Além da perda com a produção, é preciso contabilizar os custos com medicamentos e descarte de leite com resíduos de antibióticos durante o tratamento. Uma vaca com um ou mais episódios de mastite clínca durante a lactação anterior produz cerca de 1,2 kg de leite/dia a menos durante a lactação seguinte, quando comparada a uma vaca sem histórico de mastite clínica na lactação prévia.

Esses resultados permitem ao produtor estimar perdas de produção causada pela mastite clínica, mesmo que não tenha os dados do agente
causador, e dessa forma ter robustecida sua capacidade de tomar decisões sobre a viabilidade ou não do descarte.

Pesquisas sobre a interação entre o índice de mastite e o estágio da lactação indicam que a semana da lactação na qual a mastite clínica se inicia determina a magnitude das perdas de produção. Vacas primíparas com mastite produziram até 9% menos leite e até 8% menos gordura e proteína durante uma lactação do que as vacas primíparas sadias. As maiores perdas ocorream  quando vacas primíparas desenvolveram  mastite na 6º semana pós-parto. Vacas multíparas sofreram maiores perdas quando desenvolviam mastite na 3º semana pós-parto.

As perdas de gordura e proteína foram da ,mesma magnitude do que as perdas de produçaõ de leite. Após um caso de mastite clínica, a produção de leite mantém-se inferior durante o restante da lactação.

Esses resultados demonstraram a necessidade de implantação de medidas preventivas para redução da frequência de mastite clínica entre o parto e o pico de lactação, por ser esse o período no qual ocorre a maioria dos casos e as perdas de produção são mais extensas. Sendo assim, uma das primeiras recomendações para a redução das perdas é manter um bom registro de informações sobre números de casos clínicos, tratamento utilizados, dias de leite descartado e ocorrência de casos repetidos em um mesmo animal.

Autor do artigo: Marcos Veiga dos Santos
Professor Associado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e Presidente do Conselho Brasileiro de Qualidade do Leite.

Fonte: Este artigo foi publicado na edição nº 52 da Revista Mundo do Leite.

Artigo – Manejo de pastagens com ênfase em gado leiteiro

Por Flávia Maria de Andrade Gimenes1

1 Pesquisadora Científica do Instituto de Zootecnia, Nova Odessa, SP – Produção animal em sistemas de pastagens – flavia@iz.sp.gov.br

Os sistemas de produção animal baseados no uso de pastagens reduzem o custo de produção, pois são alimentos mais baratos onde o próprio animal faz a colheita da forragem, evitando custos com maquinário de colheita, transporte e armazenamento. Por muito tempo pensou-se que pastos formados por gramíneas tropicais, como dos gêneros Pennisetum (capim-elefante), Panicum (capins colonião, mombaça, tanzânia) e Brachiaria (capins marandu, decumbens, humidícola) não poderiam ser utilizados para vacas leiteiras em pastejo. Atualmente, os conceitos mudaram e as pesquisas já demonstraram que plantas forrageiras tropicais, se bem fertilizadas e manejadas, podem ter ótimos resultados elevando a produção de leite por unidade de área, como será mostrado mais a frente deste texto.

O sistema de produção animal em pastagens deve encontrar um balanço entre crescimento da planta, consumo e desempenho animal de modo a manter estável seu nível de produtividade. Caso contrário, reduções em produtividade animal e crescimento das plantas forrageiras, bem como ocorrência de erosão e plantas invasoras, levarão as pastagens à degradação. Para tanto, os limites de utilização de cada planta forrageira devem ser respeitados, pois cada uma tem uma faixa ideal de utilização onde a produção de forragem é mantida, essa faixa pode ser determinada pela altura do pasto, massa de forragem, área foliar e outros parâmetros (Figura 1), pela facilidade de aplicação no campo utiliza-se mais freqüentemente a altura do pasto.  Inserida nessa faixa, há ainda condições de pasto que maximizam a produção animal. O importante é que os parâmetros utilizados sejam características das plantas ou da comunidade de plantas da pastagem, e não baseados em tempo cronológico ou número de animais (taxa de lotação).

 

Figura 1 – Representação da faixa de utilização em pastos sob lotação contínua (Bircham e Hodgson, 1983).

Para encontrar essas condições de pasto para cada planta forrageira, diversas pesquisas são desenvolvidas em Instituições que avaliam os resultados obtidos bem como suas causas e implicações na perenidade das pastagens. Isto significa, além de resultados (se houve produção maior ou menor de carne ou leite), são estudados e descritos os processos que levam as pastagens a esses resultados. Dessa forma, entendendo o que realmente é causa e efeito em sistemas de pastagens pode-se estabelecer critérios para intervir buscando aumentar a produtividade e sustentabilidade do sistema.

O manejo dos pastos pode ser realizado de forma eficiente, independente do método de pastejo adotado: lotação contínua (quando os animais ficam permanentemente no pasto) ou lotação rotacionada (quando os animais permanecem nos piquetes durante um período de ocupação e depois saem do pasto para um período de descanso). Porém, tem ocorrido grande confusão entre o entendimento do que é um método de lotação contínua e o método sem qualquer estratégia de manejo ou fertilização dos pastos, adotado por muitos produtores. Na lotação contínua, a carga de animais (taxa de lotação) deve ser variável, onde se devem colocar mais animais quando o pasto está crescendo muito e ultrapassando a faixa de utilização recomendada para este pasto e tirar animais quando o crescimento do pasto não consegue mantê-lo dentro das metas de altura do pasto e massa de forragem estabelecidas pela pesquisa para aquele capim. Nesse método de pastejo, pastos grandes também devem ser piqueteados de forma a diminuir as distâncias a ser percorridas pelo animal e evitar que áreas de forragem sejam sub-pastejadas ou super-pastejadas, além da necessidade de reposição de nutrientes no solo. Portanto, tanto o método de lotação contínua como rotacionada podem ser utilizadas para gado leiteiro, desde que bem implantadas e acompanhadas. No entanto, há uma maior facilidade em utilizar o capim respeitando seus limites em um método ou outro, normalmente capins de porte cespitoso (que formam touceiras) adaptam-se melhor à lotação rotacionada, enquanto capins de hábito prostrado são mais facilmente manejados em pastos sob lotação contínua.

O capim-marandu (Brachiaria brizantha cv. Marandu) ou “braquiarão” é a planta forrageira que ocupa maior área no Brasil, chegando a 60% das áreas destinadas à pastagens. No entanto, apesar da sua rusticidade, em várias regiões apresenta elevado grau de degradação, principalmente por falta de reposição de nutrientes e manejo do pastejo inadequado. Sob lotação contínua trabalhos de pesquisa realizados estabeleceram que sua faixa de utilização situa-se entre 20 e 40 cm de altura do pasto, sendo que em 20 cm o pasto suporta maior taxa de lotação com menor desempenho individual (produção de carne ou leite por animal), enquanto com 40 cm apresenta maior desempenho individual, porém com menor número de animais por área.  Quando manejada com alturas abaixo desta faixa (ex:10 cm) sinais de degradação aparecem rapidamente.

Já o capim-xaráes (Brachiaria brizantha cv. Xaraés), apesar de ser da mesma espécie do capim-marandu apresenta particularidades na forma e estrutura do pasto, com hábito de crescimento mais ereto e com maior formação de touceiras em relação ao capim-marandu. Isso explica porque deve ser manejado com alturas superiores ao primeiro. Sob lotação contínua não suporta pastejos muito baixos e sua faixa de utilização ideal está de 30 a 40 cm, tendo produção animal maximizada quando manejado a 40 cm de altura (Flores et al., 2008). Por outro lado, a Brachiaria decumbens (braquiarinha) tem sua forma diferenciada dos capins marandu e xaraés, com hábito de crescimento mais prostrado, praticamente sem a formação de touceiras. Para este capim a faixa ideal de altura situa-se em torno de 20 cm e se o pasto ficar mais alto que o recomendado (ex: 30-40 cm) haverá redução de valor nutritivo com conseqüente queda no desempenho animal.

Já sob lotação rotacionada, deve-se trabalhar com duas condições de pasto: momento da entrada dos animais (condição pré-pastejo) e saída dos animais (condição pós-pastejo). Para essa situação a pesquisa estabeleceu em capim-marandu que alturas menores de entrada dos animais, se comparadas ao que é praticado e pregado em todo Brasil, causam aumento do tamanho das touceiras de capim cobrindo melhor a área e evitando erosão e entrada de plantas daninhas, bem como maior freqüência de pastejo com maior renovação de plantas e tecidos. Com pastos mais densos há incremento do consumo animal e o desempenho individual e a produtividade animal por área é elevada, sem prejudicar a perenidade e sustentabilidade do sistema de pastagens. No Brasil a altura pré-pastejo recomenda para o capim-marandu era de 40 a 60 cm, porém dados de pesquisa mostram que entrada com 25 cm de altura e saída com 15 a 20 cm seria a melhor condição para este cultivar (Gimenes et al., 2011). Nas as áreas que já utilizam sistema rotacionado para este capim, a redução da altura de entrada deve ser feita gradualmente (em 2 ou 3 pastejos),  depois disso haverá um período de adaptação do pasto a essa condição, com maior “fechamento” da área pelo capim.

Para o capim-tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia) Rodrigo Barbosa e colaboradores (Barbosa et al.,2007) estabeleceram altura de entrada de 70 cm e saída de 25 a 50 cm. Sila Carneiro da Silva e equipe (Da Silva et al.,2009) trabalhando com capim-mombaça sob lotação rotacionada demonstraram que a maior produtividade e valor nutritivo de forragem seria alcançada se os animais entrassem nos piquetes com o capim-mombaça a 90 cm de altura e saíssem com o capim de 30 a 50 cm de altura. Quando os animais entravam nos pastos com capim-mombaça muito maduro, “passado”, por volta de 110 cm a proporção de colmos em relação a folhas aumentava, e,  conseqüentemente o valor nutritivo era reduzido e as perdas de pastejo aumentadas. Ou seja, 20 cm acima do recomendado para esse capim causavam redução na produtividade de forragem do sistema. Para comparar essas condições de pasto em relação à produção de leite, Elaine Hack e colaboradores (Hack et al. 2007) em Curitiba,PR, compararam dois tratamentos em capim-mombaça: Tratamento 1) Altura da pastagem baixa: altura de entrada 90 cm e altura de saída 40cm e Tratamento 2) Altura da pastagem alta: altura de entrada com 140 cm e altura de saída 90 cm. Como resultados, as vacas da pastagem baixa produziram 14,0 kg/dia de leite enquanto as vacas da pastagem alta produziram 10,8 kg/dia. Esse resultado favorável para pastos mais baixos ocorreu decorrente à maior proporção de folhas, que possuem maior valor nutritivo, em relação aos colmos. Além disso, as características estruturais do pasto podem ter afetado o consumo, uma vez que nos pastos mais altos as folhas eram maiores o que aumentava o tempo de manipulação do capim no bocado, reduzindo o a ingestão de forragem.

Voltolini (2006) também avaliou a produção de leite em experimento conduzido em Piracicaba, SP utilizando pastejo rotacionado de capim-elefante (Pennisetum purpureum cv. Cameroon) comparando dois períodos de descanso dos pastos: Tratamento 1) entrar com os animais quando o pasto apresentava 95% de interceptação de luz ( condição correspondente a 100 cm de altura), ou seja, conforme a condição do pasto e Tratamento 2) entrar a cada 27 dias (período de descanso fixo), conforme período cronológico. O período de ocupação pelos animais foi de 1 dia pela vacas em lactação e 1 dia com grupo de animais de repasse. O Tratamento 1, onde os períodos de descanso foram variáveis, apresentou média de 19,0 dias de descanso, contra 27 dias do outro tratamento. Como resultados obtidos, as vacas que pastejaram o Tratamento 1 produziram média de 16,72 kg/dia de leite enquanto as do Tratamento 2 produziram 14,09 kg/dia consumindo a mesma quantidade de concentrado, mostrando tendência de aumento da produção quando o pasto foi colhido pelas vacas na condição mais adequada.

 

Considerações Finais

Em sistemas de produção de leite em pastagens:

  1. Plantas forrageiras tropicais são adequadas ao pastejo de bovinos de leite
  2. O uso eficiente dos pastos reduz custos de produção
  3. Respeito aos limites de utilização das plantas aumentam produtividade e sustentabilidade
  4. Os métodos de pastejo contínuo e rotacionado podem ser utilizados com sucesso
  5. O manejo do pasto deve ser baseado nas condições do capim e não em tempo cronológico ou número de animais determinado
  6. Altura dos pastos abaixo ou acima da condição recomendada é prejudicial

 

Referências Bibliográficas

BIRCHAM, J.S.; HODGSON, J. The influence of swards conditions on rates of herbage growth and senescence in mixed swards under continuous grazing management. Grass and Forage Science, v. 38, p. 323-331, 1983.

Da SILVA, S.C.; BUENO, A.A.O.; CARNEVALLI, R.A.;  UEBELE, M.C.; BUENO, F.O.; HODGSON, J.; MATTHEW, C.; ARNOLD, G.C..; MORAES, J.P. Sward structural characteristics and herbage accumulation of Panicum maximum cv. subject to rotational stocking management. Scientia Agricola, Piracicaba, v. 66,  n. 3, p. 8-19, 2009.

FLORES, R.S.; EUCLIDES, V.P.B.; ABRÃO, M.P.C.; GALBEIRO, S.; DIFANTE, G.S.; BARBOSA, R.A. Desempenho animal, produção de forragem e características estrututurais dos capins marandu e xaraés submetidos a intensidades de pastejo. Revista Brasileira de Zootecnia, v.37, n.8,p.1355-1365, 2008.

GIMENES, F.M.A.; Da SILVA, S.C.; FIALHO, C.A.; GOMES, M.B.; BERNDT, A.; GERDES, L.; COLOZZA, M.T. Ganho de peso e produtividade animal em capim-marandu sob pastejo rotativo e adubação nitrogenada. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 46, n.7, 751-759, 2011.

HACK, E.C.; BONA FILHO, A.; MORAES, A.; CARVALHO, P.C.F.; MARTINICHEN, D.; PEREIRA, T.N. Características estruturais e produção de leite em pastos de capim-mombaça (Panicum maximum Jacq.) submetido a diferentes alturas de pastejo. Ciência Rural, v.37, n.1, p.218-222, 2007.

VOLTOLINI, T.V. Adequação protéica de rações com pastagens ou cana-de-açúcar e efeito de diferentes intervalos entre desfolhas da pastagem de capim Elefante sobre o desempenho lactacional de vacas leiteiras. 2006.167 p. Tese (Doutorado em Ciência Animal e Pastagens)– Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2006.