Mastite Clínica – Prejuízos ainda são subestimados

A ocorrência de mastite, juntamente com problemas reprodutivos e de casco, é uma das principais fontes de prejuízos em rebanhos leiteiros, tendo impacto direto sobre os custos de produção.

A mastite pode manifestar-se em duas formas básicas: clínica e subclínica.  A forma clínica é facilmente reconhecida por meio do teste da caneca, pois o leite ou o quarto mamário apresentam alterações visuais, como a presença de grumos, coágulos e leite aquoso. Já a mastite subclínica somente pode ser detectada mediante testes auxiliares, como o CMT e a contagem de células somáticas.

A estimativa dos prejuízos causados pela mastite não é uma tarefa simples, pois as perdas dependem de alguns fatores que variam de propriedade para propriedade, entre os quais: preço do leite, custos de alimentação, programas de pagamento de leite, custos e protocolos de tratamentos e custos de reposição e de criação.

Uma das principais razões para quantificar as perdas causadas pela mastite é a necessidade de conscientização dos produtores sobre os custos associados à doença. Na grande maioria das vezes, produtores não percebem que a mastite traz prejuízos ou subestimam alguns custos indiretos.

Devido à natureza crônica da mastite, os prejuízos podem ocorrer durante o ano todo e não são facilmente observáveis. Dessa forma, a estimativa dos custos gerados pela presença da doença pode aumentar a percepção sobre as perdas econômicas, o que permite motivar os produtores a implantar medidas de controle e melhoria da saúde do úbere. Outra justificativa sobre a importância de conhecer os custos da mastite é que essa informação permite auxiliar o produtor a decidir sobre quais medidas e práticas de manejo apresentam maior relação custo/benefício no que se refere ao controle da doença.

A mastite clínica pode afetar diretamente a lucratividade: no entanto, a intensidade das perdas depende da gravidade dos sintomas e do tipo de agente causador. A gravidade dos casos de mastite clínica pode ser classificada em três diferentes escores:

1) leve: somente alteração do leite (grumos, coágulos);
2) moderado: alterações do leite e de sintomas no quarto afetado (inchaço,dor);
3) grave: além dos sintomas do escore 2, a vaca apresenta sintomas sistêmicos (febre, desidratação e prostração).

Na maioria das fazendas, os casos mais graves (escore 3) representam cerca de 10% do total de casos clínicos. Estima-se que em rebanhos com bom controle, ocorram até 40 casos de mastite clínica por 100 vacas/ano. Considerando-se que, em média, 25% das vacas são afetadas pela mastite clínica, pode estimar-se que, em média, cada vaca com mastite clínica apresenta 1,6 caso de mastite/ano.

A ocorrência de um caso de mastite clínica ocasiona prejuízo diretos, visto que há necessidade de tratamento e descarte de leite com resíduos de antibióticos. Esses custos são visíveis e podem ser facilmente contabilizados. Há, porém, outros custos indiretos, que não são facilmente mensuráveis. Entre esses estão a as perdas de produção de leite de curto e longo prazo, o aumento do risco de aborto e de ocorrência de outras doenças, o descarte da vaca e a perda de quartos mamários. Vacas com mastite apresentam 10% a mais de chance de serem descartadas do que vacas sadias. Muitas vezes, pode ser mais vantajoso para o produtor descartar uma vaca que tenha apresentado vários casos de mastite por conta dos prejuízos acarretados pelo animal.

Os resultados de estudos apontam que um caso clínico de mastite, independentemente da gravidade, pode acarretar perdas médias de R$ 200,00/caso. O principal componente das perdas financeiras dos casos clínicos está na redução da produção de leite das vacas afetadas. Dessa forma, o custo de um caso de mastite clínica depende principal,ente da extensão das perdas de produção. Uma vez que a mastite tende a aumentar sua prevalência durante o verão, os prejuízos são maiores nessa época do ano.
Adicionalmente, casos de mastite no início de lactação apresentam impacto maior do que aqueles no final da lactação, pois os efeitos negativos sobre a produção podem ser mantidos durante toda a lactação e, em alguns casos, podem se estender até a próxima lactação, ainda que os efeitos principais sejam sobre a lactação na qual ocorre o caso de mastite. De forma similar, vacas mais velhas são mais propensas a apresentar mastite do que animais mais jovens.

Muitas vacas que desenvolvem mastite clínica são grandes produtoras, já que a elevada produção é um dos fatores de risco para a ocorrência de novas infecções intramamárias.

As perdas da produção de leite em vacas com mastite clínica começa a ocorrer após o diagnóstico, sendo que a maior redução ocorre nas primeiras semanas (acima de 126 kg). Há uma redução gradual a um valor constante após cerca de dois meses do início do caso clínico. Vacas que desenvolveram casos clínicos raramente retomam seu potencial de produção anterior.

 

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Vacas de primeira lactação perdem cerca de 160 kg de leite no primeiro episódio. Em relação às vacas adultas de alta produção, a estimativa é de que a redução de produção seja de 250 kg de leite para o primeiro caso clínico, 240 kg de leite para o segundo e 220 kg de leite para o terceiro.

Dessa forma, uma vaca adulta que tenha três casos clínicos durante uma lactação deixa produzir 700 kg de leite somente em razão da redução de produção leiteira.Além da perda com a produção, é preciso contabilizar os custos com medicamentos e descarte de leite com resíduos de antibióticos durante o tratamento. Uma vaca com um ou mais episódios de mastite clínca durante a lactação anterior produz cerca de 1,2 kg de leite/dia a menos durante a lactação seguinte, quando comparada a uma vaca sem histórico de mastite clínica na lactação prévia.

Esses resultados permitem ao produtor estimar perdas de produção causada pela mastite clínica, mesmo que não tenha os dados do agente
causador, e dessa forma ter robustecida sua capacidade de tomar decisões sobre a viabilidade ou não do descarte.

Pesquisas sobre a interação entre o índice de mastite e o estágio da lactação indicam que a semana da lactação na qual a mastite clínica se inicia determina a magnitude das perdas de produção. Vacas primíparas com mastite produziram até 9% menos leite e até 8% menos gordura e proteína durante uma lactação do que as vacas primíparas sadias. As maiores perdas ocorream  quando vacas primíparas desenvolveram  mastite na 6º semana pós-parto. Vacas multíparas sofreram maiores perdas quando desenvolviam mastite na 3º semana pós-parto.

As perdas de gordura e proteína foram da ,mesma magnitude do que as perdas de produçaõ de leite. Após um caso de mastite clínica, a produção de leite mantém-se inferior durante o restante da lactação.

Esses resultados demonstraram a necessidade de implantação de medidas preventivas para redução da frequência de mastite clínica entre o parto e o pico de lactação, por ser esse o período no qual ocorre a maioria dos casos e as perdas de produção são mais extensas. Sendo assim, uma das primeiras recomendações para a redução das perdas é manter um bom registro de informações sobre números de casos clínicos, tratamento utilizados, dias de leite descartado e ocorrência de casos repetidos em um mesmo animal.

Autor do artigo: Marcos Veiga dos Santos
Professor Associado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e Presidente do Conselho Brasileiro de Qualidade do Leite.

Fonte: Este artigo foi publicado na edição nº 52 da Revista Mundo do Leite.

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